Seja Curioso
Existe uma forma silenciosa de desistir dos próprios sonhos: acostumar-se a uma vida confortável demais para querer sair dela.
Por Jorge Matos
Existe uma forma silenciosa de desistir dos próprios sonhos: acostumar-se a uma vida confortável demais para querer sair dela.
Imagine um cavalo que nasceu para correr livre por campos abertos. Desde pequeno, conhece o vento, sente a terra sob os cascos e experimenta a sensação de avançar sem saber exatamente onde vai chegar.
Um dia, ele é levado para um estábulo. Ali, encontra alimento todos os dias, abrigo contra a chuva e proteção contra os perigos do campo. Não precisa procurar comida, enfrentar tempestades ou descobrir novos caminhos. Tudo está organizado. Nada parece faltar.
Com o tempo, ele se acostuma. O estábulo, que antes era apenas um abrigo, passa a representar todo o mundo que conhece. Até que, em algum momento, olha para o campo novamente e sente falta de algo que talvez nem consiga explicar.
Essa história me faz pensar em quantas pessoas começam a confundir conforto com realização. Não há nada de errado em buscar estabilidade. O problema surge quando a segurança deixa de ser um meio para viver bem e passa a ser a razão pela qual deixamos de buscar aquilo que ainda podemos construir.
Às vezes, não estamos insatisfeitos com a vida que construímos. Estamos curiosos sobre a vida que ainda poderíamos construir.
A curiosidade é uma das características mais importantes de quem empreende. Não falo apenas da vontade de aprender coisas novas, mas da inquietação que nos faz questionar o que parece definitivo, enxergar possibilidades onde outros veem limites e imaginar soluções para problemas que ainda nem foram resolvidos.
Quem é curioso não se contenta apenas em entender como o mundo funciona. Quer descobrir como ele poderia funcionar melhor. Isso não significa desprezar o presente: gratidão pelo que conquistamos e ambição pelo que ainda queremos realizar podem coexistir.
Explorar novas possibilidades, porém, tem um preço. Para construir algo maior, precisamos tomar decisões sem garantias absolutas, investir antes de conhecer todos os resultados e aceitar que, por algum tempo, talvez sejamos iniciantes novamente. Sabemos o que podemos perder ao sair do estábulo, mas não temos como saber tudo aquilo que poderemos encontrar no campo.
Por isso, curiosidade sem coragem se transforma em imaginação. E coragem sem preparo pode se transformar em imprudência. O empreendedor precisa da inquietação para enxergar possibilidades e da disciplina para desenvolver as condições necessárias para alcançá-las.
A curiosidade nos faz questionar os limites. A coragem nos faz ultrapassá-los. E a disciplina nos ajuda a seguir adiante.
Existe ainda uma dificuldade nessa jornada: encontrar pessoas que compreendam essa maneira de pensar. Para alguns, pode parecer exagero abrir mão de uma situação confortável para construir algo incerto. Para outros, basta ouvir nossos planos para perguntar: por que não tentar?
Quem compartilha desse ímpeto costuma reconhecer o sentimento no outro. Não necessariamente pelo que conquistou, pelo tamanho de sua empresa ou pelo caminho que percorreu, mas pelo brilho nos olhos ao falar do futuro, pelas perguntas que faz e pela inquietação diante daquilo que ainda pode descobrir.
Não precisamos ter os mesmos objetivos ou desejar chegar aos mesmos lugares. O que nos aproxima é reconhecer no outro a mesma disposição para continuar, mesmo quando o caminho é incerto.
Porque existe uma diferença entre caminhar sozinho e caminhar sem ser compreendido. A jornada empreendedora tem decisões que ninguém pode tomar por nós, riscos que precisamos assumir e sonhos que poucas pessoas conseguem enxergar com a mesma clareza. Encontrar quem compartilha desse ímpeto não torna o caminho fácil, mas pode torná-lo menos solitário. Podemos dividir dúvidas, celebrar conquistas e enfrentar dificuldades sabendo que não somos os únicos a sentir essa inquietação.
Talvez uma das maiores riquezas dessa identificação seja descobrir que aquilo que parecia uma inquietação individual também vive dentro de outras pessoas. Não precisamos justificar constantemente por que queremos continuar. Podemos simplesmente compartilhar a jornada.
Ao longo da minha trajetória empreendedora, aprendi que crescer exige sair da zona em que já dominamos as respostas. Exige rever certezas, aprender novamente e reconhecer que o próximo estágio pode exigir habilidades que ainda não desenvolvemos. A curiosidade nos impede de acreditar que já sabemos o suficiente.
O cavalo que passou anos no estábulo talvez precise reaprender a correr. Suas pernas podem estar menos preparadas, e o campo pode parecer maior do que em sua memória. A liberdade não elimina as dificuldades, assim como a vontade de crescer não garante o sucesso. Mas a possibilidade de começar continua existindo.
Talvez você já tenha construído uma carreira sólida, uma empresa lucrativa ou uma vida com a qual sonhava anos atrás. Ainda assim, pode haver perguntas para as quais você não encontrou respostas. Não ignore essa inquietação. Investigue-a. Pergunte-se o que ainda deseja aprender, quais possibilidades nunca explorou e quem precisará se tornar para alcançar seu próximo objetivo.
O contrário da curiosidade não é o conhecimento. É a convicção de que já sabemos o suficiente.
Por isso, seja curioso. Questione o que parece óbvio. Aproxime-se de pessoas que enxergam o mundo por perspectivas diferentes. Faça perguntas melhores e explore caminhos novos. Não permita que o conforto daquilo que você conquistou diminua sua vontade de descobrir o que ainda é possível.
Porque o próximo grande passo da sua vida pode não começar com uma resposta extraordinária, mas com uma pergunta que você ainda não teve coragem de fazer.

