O advogado que constrói junto
Empreender no Brasil é uma jornada que poucos enxergam por inteiro. Quem vê a empresa pronta não vê as noites de planilha, a contratação feita antes de ter caixa, o imposto que chega antes do faturamento. Acredito que o empreendedorismo é um divisor de águas, para quem empreende e para o país. Mas também sei que ele cobra um preço alto de quem o escolhe.
Por Matheus Passos da Silva
Empreender no Brasil é uma jornada que poucos enxergam por inteiro. Quem vê a empresa pronta não vê as noites de planilha, a contratação feita antes de ter caixa, o imposto que chega antes do faturamento. Acredito que o empreendedorismo é um divisor de águas, para quem empreende e para o país. Mas também sei que ele cobra um preço alto de quem o escolhe.
A maioria dos programas corporativos tenta corrigir comportamento. O problema é que adultos e profissionais sabem o que fazer. Sabem que precisam priorizar, delegar, dar feedback, reduzir ruído, dizer não, parar de postergar decisões difíceis. Então por que não fazem? Porque existe um campo invisível entre saber e decidir. Um intervalo milimétrico entre impulso e ação. É nesse espaço que o medo se fantasia de prudência, a reatividade se fantasia de justificativas e scripts mentais, a pressa se fantasia de agilidade e o silêncio se fantasia de diplomacia. É nesse campo que a cultura adoece e a estratégia empobrece. Sua estratégia não mora no PDF; ela mora no tom de voz da sua última reunião.
Todo negócio passa por fases: crescimento, estruturação, maturação. Em cada uma, surgem preocupações novas. Carga tributária pesada, complexidade trabalhista, contratos que precisam ser pensados antes de serem assinados. O empreendedor, que deveria estar olhando para o mercado, muitas vezes se vê perdido no meio disso tudo.
É aí que o papel do advogado precisa mudar. Por muito tempo, nossa profissão foi vista como socorro de última hora: o bombeiro que chega quando o prédio já está pegando fogo. Prefiro pensar como arquiteto, que desenha a estrutura antes da obra, prevê onde haverá carga, onde será preciso reforço e por onde o negócio vai crescer. Mas vou além: o arquiteto entrega a planta e vai embora, enquanto o advogado que faz diferença fica. Senta à mesa, entende o negócio e vira parceiro.
No mercado imobiliário, que admiro e no qual atuo, isso fica evidente. Uma incorporação envolve terreno, financiamento, prazo de obra, distratos, relação com compradores. Quando um desses pontos é mal desenhado no início, o custo aparece lá na frente, em litígio, em atraso, às vezes em quebra.
O bom advogado não é o que vence a maior briga. É o que ajuda o cliente a não precisar dela.
Vi muito prejuízo que um bom contrato e uma conversa franca no começo teriam evitado. Por isso gosto de estar perto das construtoras, entender o core business, conhecer a obra, os números e as pessoas. Só assim o Direito deixa de ser freio e passa a ser ferramenta.
Acredito que o Direito deve facilitar os negócios. O empresário precisa ter energia para o que realmente importa, e a estratégia jurídica existe para dar segurança às suas decisões. Prevenir custa menos do que litigar, e proteger a empresa é, no fundo, proteger o sonho de quem a construiu.
Meu desejo é seguir nesse caminho: cada vez mais perto de quem empreende, ajudando a construir uma sociedade mais próspera.
No fim das contas, o bom advogado não é o que vence a maior briga. É o que ajuda o cliente a não precisar dela.

